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Conto solitário de uma segunda chance - Funny Girl

(In)Utilidades Conto

Published on julho 6th, 2015 | by Maiara Tissi

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Conto solitário de uma segunda chance

Fazendo revisão do meu novo livro, me deparei com esse “trecho meio crônica”, que também pode ser considerado um conto. Independente de definição e nomenclatura, eis um pedaço de mim em outra pessoa e vice-versa. 🙂

 

“Faz frio. Muito frio. Ainda assim, as palmas das mãos suam como em verão no Saara, ignorando o ar gelado que trilha seu caminho através de pequenas crateras invisíveis na lataria do carro. Cada vez menos firme sobre o volante, a pele desliza contra minha vontade. Mantenho o olhar preso no para-brisa, desejando ficar ali para sempre. É isso ou ligar o carro e fazer o caminho de volta para casa, deixar aquilo para outro dia. Mais uma vez.

Em um gesto automático, retiro lentamente a mão direita do volante e estico a até o porta-luvas. Preciso do meu caderno de anotações. Ele sempre me ajuda quando os deveres e vontades deixam minha mente em rodamoinhos. Reviso página por página das listas de afazeres em tinta vermelha que se embaraçam em linhas curtas e frases longas. As obrigações se confundem e se perdem, me deixando ainda mais longe do equilíbrio tão desesperadamente almejado.

A lista do supermercado tem o nome dele no final. Eu não me lembro de ter colocado ali, mas como em todas as outras listas, seu nome costuma mesmo ser o último item. Verifico o celular como uma última esperança de sair daquela situação. Não há mensagem de busca ou chamada de emergência. Ninguém está em perigo e o dia nublado continua seu rumo sem a minha interferência. Só há uma pessoa esperando por mim, apenas um único compromisso adiado que precisa ser cumprido.

Pela janela ainda fechada, observo, como parte de um processo para tomar coragem, o caminho que devo seguir. Da garagem, onde estou estacionada desde sei lá que horas, até a porta de madeira da casa pequena e aconchegante. Miro o painel à minha frente novamente. Logo vai chover, gotas pequenas e geladas vão cair sobre este vidro sujo há tanto tempo não lavado. É inevitável. Não há como saber se a água virá para limpar ou se a poluição deixará tudo ainda pior. Só o tempo dirá, mas eu ainda não tenho certeza se quero pagar para ver.

Tomo fôlego, inspirando um gole de paciência de ar frio. Posso sentir quando atinge meu pulmão e quando transpira junto com o medo, tentando aliviar o coração. Prestes a sair do carro, meu corpo fica levemente mais pesado. Vejo pelo retrovisor a vizinha da casa à frente andando calmamente pela sua garagem. Me retraio o máximo que consigo, como em tentativa de entrar por osmose no banco de estofado furado.

Por sorte, ela não demora a entrar em sua casa bisbilhoteira. Não sei se aguentaria por muito tempo. Poucos segundos são o bastante para esvaziar a coragem que já fora difícil de encontrar. Se quiser sair daqui, é melhor me apressar, antes que mais alguém apareça. Abro a porta do carro como um soldado que se dirige ao campo de batalha.

Pego meu caderno e fecho a porta atrás de mim, fazendo o mínimo de barulho possível. Sinto um pouco de tristeza ao notar sob os meus passos firmes a grama morta e sem cor do jardim um dia tão vibrante. Talvez seja a temperatura. Talvez o desleixo. Provavelmente os dois.

Pressiono o caderno repleto de listas com a palma da mão, escondida dentro do bolso, coberta em fuga do frio e da ansiedade. Mesmo que ainda suadas, é melhor esconde-las. O conforto de quem um dia já se descobriu neste mesmo lugar não existe mais. É encoberto e praticamente esquecido pelo sentimento oposto que toma conta hoje.

A campainha é a mesma, o toque estridente agora irrita. O homem é o mesmo, as feições nunca mudaram. Adiante, mais uma vez enfrento meu dilema. Afinal, este é o problema. Tudo mudou, menos ele. Com um gigante sorriso acompanhado pelo olhar de criança que um dia foi tão encantador, ele abre os braços. Alheio à realidade póstuma de um relacionamento irreversivelmente incurável. Ele não percebe. Ainda assim, eu tento mais uma vez.”

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Momento Crônica é uma parceria com meu Tumblr pessoal, o Diário Intergalático. Quem curtir, dá um pulinho por lá! 😉

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About the Author

Criadora e editora-chefe do site Funny Girl. Apesar de ter prestado vestibular para Rádio e TV e adorar dar uma de jornalista, Maiara é cineasta por formação. Residente em São Paulo, suas grandes paixões são o cinema e o teatro, embora também não resista a um bom livro e seja levemente viciada em seriados de televisão.



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