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Especial “Os Miseráveis”: Crítica do filme - Funny Girl

Cinema background

Published on janeiro 31st, 2013 | by Maiara Tissi

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Especial “Os Miseráveis”: Crítica do filme

Escrita por Victor Hugo em 1862, a trama de Os Miseráveis se passa na França pós Revolução Francesa, quando apesar de terem conseguido tirar o Rei Luís XVI do trono, a maior parte de sua população não tinha emprego e vivia nas ruas ou em barracos. Baseado nesse cenário de pobreza e rigidez dos poderosos que tinham colocado outro Rei no comando do país, Victor Hugo criou seus personagens e seu livro virou um clássico da literatura francesa.

LesMiserables-1024x649O protagonista Jean Valjean é um homem comum preso por roubar um pedaço de pão e que fica encarcerado por 19 anos devido às suas tentativas de fuga. Em sua condicional, ele some e é perseguido pelo inspetor Javert, quem vive exclusivamente para exigir o seguimento das leis. Nos anos seguintes, Valjean é transformado por algumas pessoas colocadas em seu caminho como o Bispo Digne, uma mulher chamada Fantine e sua filha Cosette, quem cria como sua. A história se segue até a juventude de Cosette, quando esta se apaixona por Marius, um estudante que junto com seus amigos e colegas luta pelos direitos do povo e leva a trama ao seu clímax em uma guerra civil contra os soldados da monarquia.

Em 1980, a história foi encenada pela primeira vez no teatro, em uma versão musical escrita pelos compositores Claude-Michel Schonberg e Alain Boublil. A dupla teve a ideia de adaptar a obra após assistir à peça inglesa Oliver! e foi seu talento o responsável pela magnitude que a história ganhou desde então. Com o público francês encantado pela história, logo a peça foi levada para Londres nos palcos do Queens Theatre em West End, já então sob a direção de Cameron Mackintosh. Mais de vinte anos depois, o musical já esteve em cartaz tanto na Broadway quanto em todos os cantos do mundo, inclusive o Brasil, e encantou milhões de pessoas.

5670_TP_00016RAgora, Os Miseráveis finalmente chega aos cinemas. A espera, porém, foi compensada por um elenco estelar e um diretor com um senso artístico apurado- além de uma estatueta do Oscar na estante. Nos palcos, Jean Valjean, Javert, Fantine, Cosette, Marius e Éponine foram interpretados por lendas do teatro musical como Colm Wilkinson, Patti Lupone, Michael Ball e Lea Salonga. Nos cinemas, portanto, estes personagens não poderiam ficar nas mãos de qualquer um e o comandante Tom Hopper sabia disso, portanto tratou de audicionar todos os interessados, não importava quem fosse.

Depois de um longo processo, Hugh Jackman foi escolhido como Jean Valjean e pôde mostrar pela primeira vez nos cinemas que sua carreira começou muito antes de Wolverine, e no teatro musical. Russell Crowe é Javert e dá um tempero mais rock’n’roll ao personagem, enquanto Anne Hathaway reprisa o papel já feito por sua mãe como Fantine. Amanda Seyfried revelou todo seu talento vocal em Mamma Mia! e agora faz Cosette, formando o casal da história ao lado de Eddie Redmayne, que surpreende como Marius. Já Éponine é interpretada por Samantha Barks, a jovem de apenas 22 anos que já faz o mesmo papel há dois anos em West End.

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Já nos primeiros segundos do filme Tom Hopper mostra que gosta mesmo de um visual dramático e impactante. A câmera saindo de dentro da água, passando por uma bandeira da França que boia em sua superfície, e sobe até chegar ao cais com Valjean puxando um navio ao som das primeiras notas de “Look Down”, está aí uma abertura que inegavelmente deixa uma ótima impressão. Nesta primeira cena também já fica claro o antagonismo e rivalidade entre Jean Valjean e Javert, o que dá o tom para o resto do filme.

Les-Miserables-57Entre as cenas mais impactantes estão também o encerramento de “Valjean’s Soliloquy”, momento que marca o grande ponto de virada do protagonista, e a sequencia de “One Day More”, cantada por todo elenco e que no teatro é o encerramento do primeiro ato. Também recebe uma belíssima adaptação a primeira canção do segundo ato, “Do You Hear the People Sing”, que segue a anterior no filme e reanima os espectadores para a batalha que está por vir.

Além de seu olho clínico combinado com uma bela fotografia, Tom Hopper resolveu inovar ao colocar seu elenco para cantar ao vivo. Até então os filmes musicais sempre gravavam as canções previamente em um estúdio e os atores precisavam apenas dublar quando estivessem gravando a cena. Por se tratar de um filme em que se canta o tempo inteiro, para Hopper isto não iria funcionar. Em prol de uma interpretação mais realista e emocional, o diretor providenciou um pianista que tocasse as músicas nos bastidores junto com a gravação. Os atores, então, ouviam a melodia através de um pino no ouvido e cantavam as músicas quantas vezes fosse preciso, ou melhor, quantos taques fossem necessários.

Les-Miserables-Still-les-miserables-2012-movie-32902250-1280-853De fato, a performance dos atores foi bastante aprimorada e a mudança não passa despercebida pelos espectadores, que são tocados em um nível ainda maior por conta dessa técnica. Sua escolha, porém, foi polêmica. Além de ter sido o primeiro a usar este método e, portanto, já causar frisson só por isso, os fãs da peça podem estranhar ao se deparar com uma música que já conhecem há tanto tempo com um ritmo mudado ou notas diferentes.

Uma escolha realmente duvidosa feita por Tom Hopper, aliás, foi o uso em excesso de planos holandeses (aquele em que o objeto de cena ao invés de ficar centralizado fica à um canto da tela), assim como a persistência do diretor na utilização de close-ups, por vezes inapropriadamente. Nos dois casos a sensação que fica é a de perda de conteúdo e principalmente, o desvio de atenção do espectador. É o que acontece na cena de “I Dreamed a Dream”, filmada inteiramente em um quadro tão próximo à atriz que a câmera chega a não conseguir acompanhar seus mais leves movimentos.

Claro que nenhum desses fatores é capaz de estragar o filme belissimamente construído e muito menos a performance desse elenco tão apaixonante. Os atores, protagonistas e coro (grupo esse formado completamente por atores que já fizeram parte dae alguma montagem do musical no teatro), são os maiores responsáveis por levar o espectador em uma jornada de dor e sofrimento através de uma trilha sonora clássica e emocionante. O filme faz uma bela homenagem à obra e à peça e explica para o grande público o porquê de todo o sucesso de Os Miseráveis até os dias de hoje.

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About the Author

Criadora e editora-chefe do site Funny Girl. Apesar de ter prestado vestibular para Rádio e TV e adorar dar uma de jornalista, Maiara é cineasta por formação. Residente em São Paulo, suas grandes paixões são o cinema e o teatro, embora também não resista a um bom livro e seja levemente viciada em seriados de televisão.



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